Dose diária

tumblr_o7d2hz2LJl1s26apoo1_540Luiza tinha 15 anos na época e já se achava esperta demais para a idade. E ela realmente era mais esperta do que deveria ser para o próprio bem. Muitos acreditam que ela era daquele modo porque cresceu sozinha, mesmo morando com os pais, que eram atores de peças de teatro e só paravam em casa de quinze em quinze dias. Aos 13 ela já ganhou o direito de poder ficar sozinha e se virar naquele meio tempo, antes disso uma senhora de 50 e poucos anos – que mais pareciam 80 e poucos – ficava em casa “cuidando dela”. A velha só fazia café e fumava na varanda o dia inteiro. Luiza detestava a maldita. Às vezes ela desejava ter um irmão para ter alguma companhia, mas seria apenas mais trabalho para ela e seria egoísmo de seus pais colocarem outra criança que não cuidariam no mundo.

A menina já se achava madura o suficiente para levar os boyzinhos da escola para sua casa, afinal, ninguém ficaria sabendo. Ela nunca levava os meninos bobos do primeiro ano, ela preferia os rapazes do terceiro e os que faziam cursinho pré-vestibular. Aprendeu a fazer sexo e a fumar maconha com 14 anos e meio. Enquanto tomava uma ducha ela pensava em como era mais esperta e interessante do que as garotas de sua classe, que ainda se encontravam na fase desajeitada da adolescência. Todos os meninos, claro, concordavam com ela. Luiza era diferente. Tinha cabelo preto até a cintura, olhos grandes e invejáveis 1,78 de altura. Ela gostava de agir como se fosse uma mulher vivida e elegante.

Ela não conseguia se lembrar bem quando começou a se interessar por homens bem mais velhos que ela. Quando se deu conta, já conversava todas as noites com um tal de Henrique pelo MSN. Ela não sabia muito sobre ele, apenas que tinha 33 anos, que trabalhava numa agência de publicidade e que o casamento não ia nada bem. Ah! E que tinha um papo muito charmoso. Ele sempre fazia questão de elogiá-la em como era distinta das outras meninas, sobre como ela era linda e inteligente. Os dois gostavam de The Strokes e Arctic Monkeys, curtiam filmes de terror e de apertar um quando não tinham nada para fazer. Luiza se sentia nas nuvens quando conversava com ele e aos poucos foi parando de se engraçar com os moleques da escola, que eram infantis e sem graça comparados ao Henrique. Ela estava caidinha por ele e conseguia imaginar perfeitamente em sua cabeça um filme dos dois, no qual ele largava a mulher megera para ir encontrá-la e eles terem um caso de amor tórrido em algum hotel fora da cidade.

Era quase seu aniversário de 16 anos, depois de longos três meses de conversas noturnas com Henrique, quando ele deu a grande notícia que fez o coração adolescente e apaixonado de Luiza quase saltar para fora do peito. Ele viajaria para a cidade da menina a trabalho e, claro, gostaria de conhece-la pessoalmente. Henrique não precisou de falar duas vezes e logo já tinham combinado de se encontrar no bar do San Afonso Hotel, em duas semanas, as 19h. Ela quase não conseguia acreditar em como era sortuda por ter achado um cara como Henrique, depois de tantos anos sozinha, ele seria seu cavaleiro de armadura reluzente. Por sorte, o encontraria durante uma das viagens dos pais, então não teria que responder questionamentos desnecessários. Durante o tempo de espera, começou com o hábito de fumar cigarros, porque ajudavam a controlar sua ansiedade. As unhas, que eram grandes e pontiagudas, foram roídas até não poder mais.

Quando o dia chegou, ela pegou um táxi até o ponto de encontro. Estava nervosa e as mãos quase pingavam suor, ela pensou em acender um cigarro, mas não queria estar fedendo quando Henrique chegasse. Sentou-se no bar e nem sequer solicitaram sua identidade quando pediu rum com Coca-Cola. Um homem nem bonito, nem feio, entrou no bar impregnando o ambiente, que já cheira a fumaça de cigarro, com colônia barata. Quando ele sorriu para Luiza, ela já sabia de quem se tratava. Henrique sentou-se ao seu lado, deu-lhe um beijo na bochecha e pediu gim tônica. Luiza se conformou, ele não era tudo aquilo que ela esperava, mas parecia bem-educado e gentil, fora que a tal paixão ainda ofuscava seus olhos. Ela riu de suas piadas e bebericou mais drinques ao seu lado, enquanto conversavam sobre os filmes que foram indicados ao Oscar naquele ano. Até que Henrique se levantou, pagou a conta e a chamou para irem para fora do hotel. Luiza pensou que eles reservariam um quarto, mas pelo visto, os planos de Henrique eram outros.

Quando ele a chamou para entrar em seu carro, uma vozinha dentro de sua cabeça avisou que não era uma boa ideia. Sendo a menina madura e esperta que pensava que era, Luiza sabia que não deveria entrar em carros de estranhos. Mas espera, Henrique não era um estranho. Ela já conversava com ele há meses e sabia muito sobre ele. Ela sabia que ele tinha um cachorro chamado Mauricio, que já havia arranjado um advogado para o divórcio, que saia para correr todas as manhãs e que gostava de assistir corridas da Formula 1 aos domingos. Henrique nunca fez nada para que Luiza desconfiasse dele, na verdade, ele era a pessoa em que ela mais confiava no mundo, era seu único amigo de verdade.

Henrique dirigiu até uma rua afastada da cidade e estacionou o carro ao lado de um terreno de obras. Eles se beijaram por um tempo dentro do carro e botaram em pratica o que Luiza, até então, só tinha experimentado com os meninos do colégio. A garota conseguia imaginar perfeitamente como a mãe ficaria brava se descobrisse onde ela estava, não que ela ligasse muito para isso. Luiza teve a oportunidade de perceber, durante a transa, que não estava tão apaixonada como pensou e decidiu que quando chegasse em casa daria um gelo em Henrique, apenas para não parecer uma menina bobinha e desesperada. Tinha que ter um pouco de jogo. Decidiu também que daria adeus aos cigarros e passaria o final de semana fumando erva e assistindo Lost na TV a cabo. Talvez ela até chamasse o Pedro, um garoto da escola, para fazer companhia a ela. Fora que ela tinha que estudar para a prova de química de segunda-feira. Enquanto Luiza refletia sobre sua vida, Henrique terminou o que estava fazendo e, antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, encostou um cano de uma 22 em sua testa e disparou.

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