Doutor Leseira Begins

ha-40-anos-morria-bruce-lee-1Eu odeio sonhar que estou batendo em alguém. Não por eu ser contra a violência, mas pelo fato de que, em todos os sonhos desse tipo, eu soco e chuto extremamente devagar. Não importa se eu estou certo ou errado no sonho, não adianta, não consigo lutar. Uma vez li que isso acontece porque o cérebro não consegue reproduzir algo que nunca realizou, tipo socar alguém. Porém, eu lembro perfeitamente do dia que quebrei o nariz de um moleque da sétima série porque ele estava implicando com um cara deficiente – que pelo menos parecia ser – e lembro perfeitamente de como os nós dos meus dedos ficaram roxos igual a desgraçada depois daquilo, então essa teoria simplesmente não faz sentido.

Desde que comecei a ter sonhos desse tipo, resolvi evitar entrar em brigas, por medo de algo dar errado dentro da minha cabeça e eu entrar em slow motion no meio do porradeiro. Não que eu entre em muitas brigas, na verdade não entro em nenhuma, mas não deixo de pensar nisso toda vez que vejo Anderson no pátio da escola, com aquele olhar debochado de filho da puta, achando que é o fodão. Não é segredo pra ninguém que ele não gosta de mim desde que o boato de que eu comi a Isadora no ultimo rock espalhou. Engraçado que ele é doido (literalmente) pela Isadora. Mais engraçado ainda é que eu não comi a guria (quem dera). Então sempre que eu passo por perto desse chupa-engole eu sinto o ar ficar estático ao meu redor e meus instintos primitivos me mandam quebrar ele, pra ele aprender a parar de olhar torto.

No dia em que eu acordei com uma dor de cabeça dos infernos e fui praticamente me rastejando até a escola, parecia que Anderson estava tendo os mesmos pensamentos que eu, ou seja, queria me moer a base da porrada. No recreio ele mandou os capangas neandertais dele me darem um aviso “Coé muleque, o Anderson vai te deixá feio depois da aula, lá na pracinha, cê ta ligado?”. E eu estava ligado. Estava ligado que ele ia acabar comigo se eu aparecesse na pracinha e estava mais do que ligado que nunca mais seria deixado em paz se eu não aparecesse. O que não me deixava com muitas escolhas. Durante boa parte da aula de história eu fiquei concentrado em tentar fazer a dor de cabeça passar.

Quando cheguei na pracinha vi que havia muitas pessoas me esperando, inclusive a maluca da Isadora, que insistia em não desmentir que comi ela. Pelo visto o anuncio da briga correu rápido pela escola e no centro da galera estava o Anderson, estalando os dedos, fazendo cara de mau, achando que era o Muhammad Ali em pessoa. Chegava a ser engraçado. Peguei o chaveiro de casa e meti as chaves no meio dos dedos da mão direita. Os sonhos das lutas em slow motion martelando na minha mente, fazendo com que a dor de cabeça voltasse aos poucos com pontada. Eu tinha que ser realista, quais chances disso acontecer de verdade?

“Ae pivete, tu tem medo da morte?” o filho da puta me perguntou, tentativa tosca de me deixar intimidado. Eu apenas ri. Tentei fazer com que meu riso parecesse debochado e despreocupado, mas pareceu uma risadinha nervosa. A medida que eu me aproximava do centro da roda eu apertava mais as chaves na minha mão, tentando pensar onde seria melhor acertar o primeiro soco, mas a cara maciça de Anderson parecia feita de cimento que esmilhagaria meus dedos no primeiro murro. “Cai dentro” eu falei.

E ele foi. Foi igual um bicho doido pra cima de mim, tipo um cachorro com raiva, sei lá. Quando ele flexionou o braço pra me acertar a primeira porrada eu vi que tinha algo errado. Parecia um flashback do meu sonho, o soco vinha devagar, mas era o soco do Anderson, não o meu. Quando ele conseguiu encostar o punho na minha bochecha, foi tão suave quanto uma pena. Ele percebeu que aquilo havia acontecido também e a cara de concreto dele se deformou numa expressão de confusão. Ele levantou a outra mão para tentar dar outro soco, mas do mesmo modo, veio lento. Eu olhei em volta e todas as pessoas estavam vendo exatamente a mesma coisa, boquiabertas. Aí foi minha vez de atacar. Peguei impulso com o braço e POW! dei uma muquetada pesada na cara do moleque, que cambaleou pra trás.

Eu quis rir, rir muito, mas só consegui dar um sorriso de lado. Dei outro soco na cara de bosta do guri e até larguei as chaves no chão, uma vez que não precisaria delas. Ele se defendia como podia, mas até isso estava lento e consegui acertar todos os murros um atrás do outro. Os capangas dele não deixaram por isso e também avançaram na minha direção, fervendo de ódio de ver o alfa deles sendo detonado daquele jeito. Para minha genuína surpresa, os socos deles também vieram devagar. Não demorou muito pra eu deixar todos no chão. Quando a “briga” acabou, olhei em volta e todos ainda estavam boquiabertos e confusos com o que viram. Logo depois, por alguma razão, começaram a aplaudir a assobiar.

“Caraca, cê é tipo um super-herói!” ”Ele é tipo o bátima!” ”Cê viu o que ele fez com o Anderson?” “Deixô o muleque feio” “O Anderson tava drogado?” “Eu vi, ele ficou lerdo lerdo!” era o que eu conseguia ouvir vindo da multidão. Eu resolvi me beliscar, porque nunca se sabe, mas não era um sonho, olhei para as minhas mãos e os dedos estavam inchados de tanta porrada. A briga realmente tinha acontecido. Cocei a cabeça confuso. Decidi que nunca entraria em outra briga de novo, mesmo com filhos da puta igual ao Anderson, mas dessa vez não por medo de ser lerdo. Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, a voz do tio Ben falou na minha cabeça. Então criei minha identidade secreta para proteger aqueles que amo: o Doutor Leseira.

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