A nobre arte de não ser um babaca

tumblr_nugsyyxi3P1qh0z32o1_500O mundo consegue ser um lugarzinho cruel e perverso quase em tempo integral, se você quer saber. Tanto que de todas as notícias que se passam na TV, seja ela gratuita ou paga, pelo menos 70% são sobre coisas horríveis como mortes, crimes, drogas e Susana Vieira. É muito mais fácil ficar chocado com a notícia de que alguém foi gentil e fez a coisa certa – que deveria ser considerada “normal”, por exemplo devolver uma carteira que achou na rua para o dono ou colocar borda de catupiry de graça na pizza – do que se espantar ao saber que alguns jovens beberam demais e enfiaram o carro em um poste no meio de uma rodovia às 3 da manhã.

É tão irônico pensar que é a natureza malvada de alguns seres humanos que nos faz perceber e dar valor às coisas boas que existem por aí.  Se não houvesse a miséria, ninguém daria valor a generosidade, se não houvesse a Marvel da Disney, ninguém daria valor a Marvel da Fox. Simplesmente porque coisas boas só se contrastam com coisas ruins.

Há um tempo atrás eu fui pegar um ônibus junto com o meu namorado no centro de Vitória, perto do Parque Moscoso, num ponto meio suspeito perto de uma barraquinha de pipoca de um senhor que estava quase para bater as botas. Pegamos o ônibus e na catraca percebemos que eu estava sem o meu passe. Haviam duas opções: descer do ônibus ou pular a catraca. Resumidamente, nas duas iriamos nos ferrar. Resolvemos descer do ônibus, mas honestamente, eu não sei o que faríamos depois disso, porque minha casa fica muito longe do Parque Moscoso, muito longe mesmo, então quem sabe tentaríamos mendigar uns trocados? Nunca saberemos. Mas milissegundos antes de fazermos isso, um cara sentado em um dos bancos da frente do busão virou para cobradora e disse “Pode passar a passagem deles aí” e deu uma nota de 10 reais para ela, com esse jeito de patrão mesmo.

Uma coisa simples, né? O cara simplesmente foi gente boa e quebrou nosso galho, putz, éramos dois pirralhos sem nenhum trocadinho no bolso e ele, logicamente, teve compaixão. Porém, foi exatamente esse gesto simples, essa coisa boba que animou o meu dia, que fez minha fé na humanidade voltar um pouquinho. Por ser uma coisa que eu não faria por alguém, me deixou feliz. Pode me chamar de egoísta, mas é porque eu não tenho um tostão furado mesmo.

Acho que ficar feliz por pequenos gestos é o que nos mantêm indo para frente, que nos faz perceber que nem tudo está tão ferrado assim. Deve ser algum tipo de equilíbrio natural do cosmos, tipo engolir o chiclete e depois achar dinheiro no bolso da bermuda. Se for este o caso, tomara que o cara do ônibus encontre uma nota de cinquenta por aí na rua.

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