Condicional

tumblr_o6yjksiMrn1tgf19xo1_1280Era quase nove e meia quando Jonas chegou na reunião, atrasado como sempre. Eles haviam mudado o local de encontro e isso não colaborou nada com sua pontualidade, que já era uma merda. A partir daquela reunião, eles se encontrariam na quadra de uma escola pública de Laranjeiras, que se encontrava arrumada especialmente para recebê-los com cadeiras brancas de plástico e uma mesinha com café aguado e biscoitos de Maisena. Assim que chegou, Jonas quis dar meia volta e sair, se pudesse, claro, mas tinha que ir nesses encontros idiotas religiosamente toda quarta-feira à noite devido a sua condicional.

Sim, Jonas foi preso, mas ele não é um cara mau, na verdade, ele é muito mais gente boa do que grande parte das pessoas que conhecemos. Depois de complicações entre sua pequena horta de Cannabis Sativa e a polícia, acabou indo em cana por mais que tentasse explicar que era apenas para consumo próprio e não para tráfico. Boa sorte em convencer um policial de que você não é traficante quando se é pobre e negro, Jonas. Mas ele já se acostumou com a vida, que nem sempre era justa. Foi condenado a cinco anos de prisão, mas depois de longos um ano e meio de bom comportamento recebeu direito à condicional.

– Boa noite, Jonas, pode se juntar a nós – Disse Marlene, a responsável pelo grupo de terapia para drogados, ou como ela insiste em corrigir “Oficina terapêutica psicossocial para dependentes químicos”. Ela mesma lembrava, toda sessão, que já havia sido viciada em cocaína e que hoje estava livre desse fardo, tentava se usar de exemplo de como a vida podia ser perfeita sem o uso de drogas, mas era apenas uma quarentona fracassada sem marido ou filhos. Mesmo com seu discurso antidrogas, Jonas tinha certeza que ela ainda dava um teco ou outro de vez em quando.

Jonas sentou-se na única cadeira vazia, ao lado de Marlene. Estava começando a ficar sem saco para ir nessas reuniões, uma vez que não tinha parado de fumar maconha, mas tinha que parecer que sim até tudo voltar ao normal. Estava difícil de arranjar emprego, ninguém quer contratar um cara que já foi preso, então ir à essa reunião ajudava a aumentar um pouco sua moral com os futuros patrões.

– Jonas, conte para todos no grupo porque você está aqui hoje – Pediu Marlene, fazendo a pergunta de sempre de todas as reuniões. Sempre tinham que lembrar a todos o porquê de estarem ali, para perceber o que a droga havia feito com a vida deles. Tirando o fato de fazer Jonas ir parar atrás das grades, maconha nunca havia lhe feito mal algum e ele nem tinha certeza do porquê de ser ilegal.

– Eu fui preso por cultivar erva dentro da minha casa…

– Lembre-se que temos que chamar a droga pelo nome correto – Jonas foi interrompido por Marlene. Ele pigarreou e começou de novo.

– Eu fui em cana por cultivar maconha dentro da minha casa e hoje estou em condicional, estou sem fumar desde o dia em que fui preso – Mentiu ele. Era muito mais fácil passar pelas reuniões assim, falando tudo o que eles queriam ouvir. Marlene começou a elogiá-lo e explicar como era muito benéfico viver sem ingerir THC, mas Jonas não prestou atenção, ela repetia aquilo em todas as reuniões.

Ele olhou em volta e viu Cabral quase dormindo na cadeira, Roberto com aquele tique esquisito na mão esquerda e Luiz o olhava com a mesma cara de tédio. O outro conhecido, Patrick, não apareceu na reunião e Jonas torceu para que ele estivesse bem, Patrick era um cara legal, mas tinha dívidas com traficantes até o pescoço. Haviam duas pessoas novas no grupo, um cara e uma mulher – muito bonita, aliás – que pareciam estar prestando atenção no que Marlene dizia. Jonas enfiou as mãos nos bolsos da bermuda e suspirou pesadamente, seria uma reunião longa.

Assim que todos foram dispensados, Jonas e Luiz se juntaram na calçada do lado de fora da escola para fumar cigarros. Luiz estava fazendo sua rotineira reclamação sobre ter que comparecer às reuniões. Ao contrário de Jonas, ele não havia sido preso, mas a mulher o obrigava a ir graças ao seu vício em álcool, se ele não colaborasse, ela jurou que o abandonaria. Jonas apenas concordava em silencio e fumava seu cigarro com longas tragadas, mas assim que Luiz terminou seu monologo, ele se permitiu perguntar:

– Quem é aquela mulher nova?

– Eu não ouvi o nome dela muito bem, acho que era Isabela ou Manuela, sei lá. O pai dela a obrigou a vir porque descobriu que ela é maconheira. – Disse Luiz dando um trago e soprando a fumaça logo em seguida. Jonas apenas assentiu novamente, como se compreendesse a situação da moça. Luiz terminou seu cigarro e ofereceu Jonas uma carona para casa, mas ele recusou, queria ficar mais um pouco aproveitando o silencio, então acendeu mais outro cigarro.

Ele estava pensando na Isabela ou Manuela, que era uma morena linda. Há quanto tempo ele não ficava com uma mulher? Nem Jonas sabia. Torceu que na próxima quarta-feira o pai dela a obrigasse a ir novamente, quem sabe ele chegaria no horário certo e poderia puxar algum assunto. Ele riu com a ideia. O quão patético seria encontrar o amor da sua vida numa terapia em grupo para viciados? Parecia até aquele filme com o Brad Pitt. Jonas jogou a guimba do cigarro no chão e a apagou com a sola do chinelo, enfiou a mão nos bolsos e rumou para casa.

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