A parte incompreensível da vida

tumblr_o4bf0nZ2fp1qinh1vo1_1280.jpgOs ponteiros do relógio da parede da cozinha marcavam três e quarenta e cinco da manhã e lá estava Maria Eduarda esquentando no micro-ondas um copo de café que havia feito na tarde do dia anterior. Era sábado, mas ela não conseguia pregar o olho desde que soube que Seu Antônio, vizinho do apartamento ao lado, havia se matado. Ela estava num estado inquieto já há quase três dias e olheiras roxas e grandes já estavam ameaçando se pendurar abaixo de seus olhos. Ela sabia que tomar café não era o melhor remédio para a insônia, mas ela preferia virar a noite acordada e trabalhando do que ficar deitada na cama sem conseguir dormir, pensando no pobre senhor.

Ela pegou com cuidado o café e deu um gole, o gosto era ruim, mas provavelmente iria conseguir cumprir o papel de mantê-la acordada. Resolveu pegar o notebook e sentar-se na varanda, mas o vento frio de junho a fez mudar de ideia e foi se sentar no pufe da sala de estar, o clima frio apenas colaborava em deixá-la ainda mais triste. Maria Eduarda era escritora de livros de autoajuda, mas não era exatamente famosa e nem sempre colocava em pratica o que escrevia. Ela não parava de pensar na hipótese de que se Seu Antônio tivesse lido algum livro seu, talvez não teria se matado, mas duvidava muito disso. Sempre achou que seus livros ajudavam as pessoas, mas depois do episódio percebeu pela primeira vez que suas obras eram uma merda e que não ajudariam nem uma pré-adolescente na primeira TPM. Ela olhou para o indicador piscando do documento em branco do Word, este seria um novo capitulo no livro e ela não conseguia escrever nem uma frase sem apagá-la logo em seguida. Nenhuma palavra de encorajamento vinha à sua cabeça.

Seu Antônio tinha lá para seus quase sessenta anos e era aposentado, sua mulher havia o abandonado muito antes de se mudar para o condomínio e seu único filho nunca o visitou, mesmo com ele sempre lhe enviando cartas. Ainda assim, sempre era simpático com Maria Eduarda quando a via no corredor e sempre que podia a convidava para tomar um chá em sua casa e conversar sobre a vida. Ela nunca diria, naquela época, que algo estava errado com ele. Porém, Maria Eduarda teve o desprazer de ouvir o momento em que Seu Antônio acabou com tudo. Ela estava conversando com a mãe no telefone quando ouviu um barulho alto vindo de trás da parede que dava para o outro apartamento, conseguiu reconhecer o barulho de uma arma sendo disparada, mas não imaginou o que realmente tinha acontecido. Com medo de ser algum louco ou assaltante invadindo o apartamento do vizinho, ela chamou a polícia. Os policiais derrubaram a porta da casa de Seu Antônio e depois vieram lhe contar o que havia acontecido. Quando foram buscar o corpo, ninguém da família apareceu.

“Nascemos sozinhos, morremos sozinhos” foi tudo o que ela conseguiu digitar. O indicador piscando conseguia ser ameaçador, como se desafiasse Maria Eduarda a escrever algo sobre autoajuda depois do ocorrido. Ela tomou mais café, conseguia sentir o cansaço até nas pontas dos dedos, era quase uma tortura já que não conseguiria dormir mesmo se tentasse. Ela releu a frase que havia acabado de escrever, com certeza não deveria estar em um livro motivacional. Maria Eduarda passou a mão tremulas devido a cafeína pelos cabelos oleosos, fechou a tampa do computador e o jogou para cima da mesa de centro. Outro gole no café, que já começava a esfriar e ficar ainda mais intragável.

O tempo que a editora tinha lhe dado para terminar o livro ainda era longo, porém não era normal Maria Eduarda ficar mais do que algumas horas sem escrever. E tudo que escrevia era supérfluo e completamente insensível, agora ela era capaz de perceber isso. Quis apagar o livro todo e escrevê-lo novamente, um livro que talvez teria ajudado Seu Antônio se ele ainda tivesse a oportunidade lê-lo. Pensou também escrever um livro sobre a importância da família, para que o filho dele pudesse ler e se sentir um lixo. Também quis escrever um livro sobre como coisas assim podem acontecer e ninguém nem ao menos desconfiar da possibilidade.

Ela levantou e jogou com raiva o café ruim na pia da cozinha e levou as mãos até o rosto, sem saber o que mais faria naquele resto de noite. Dando-se por vencida, foi assistir tv a cabo e se permitiu, finalmente, chorar um pouquinho, mas não por Seu Antônio ou por seus livros, chorou porque percebeu que não sabia nada sobre a vida.

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