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greedyJandira adquiriu um hábito estranho com o passar dos anos: ela andava olhando para o chão. Poucas vezes ela levantava a cabeça, como quando ia atravessar a rua. Não era problema de timidez, muito pelo contrário, Jandira sempre que podia puxava assunto com alguém, seja na fila da farmácia ou no ponto de ônibus. Ela, na verdade, olhava para o chão à procura de dinheiro. Uma vez achou uma nota de vinte reais na calçada que por pouco não passou despercebida, a danada estava presa no matinho que crescia ao lado do asfalto. Desde então, ela se perguntou quanto dinheiro já perdera por andar sem olhar para o chão. Às vezes, no final do dia, ficava com dor no pescoço, mas a mesma se curava instantaneamente quando encontrava uns trocados perdidos por aí.

Sua filha, Jaqueline, a achava sovina, nunca gastava com nada que fosse considerado “desnecessário”, bolos de aniversario e celulares chiques estavam inclusos na lista. Jaqueline é quem não sabia de nada, pensava Jandira, a menina havia crescido no bem bom, Jandira se matava de trabalhar desde os treze anos, tinha começado na vendinha do seu pai e não parou desde então. Seu pai era o homem mais trabalhador que já havia conhecido, sempre deixou claro para ela e seus irmãos que dinheiro só vem com muito esforço, mas vai embora com facilidade. Jandira, como mais velha de cinco, sempre concordou com cada palavra que ele dizia. Escola não traria dinheiro para ela, então ela não chegou a terminar o ensino fundamental, mas aprendeu muito mais com a vida do que com a escola. Com vinte anos, tinha orgulhosos e suados dez mil na conta do banco.

Seu marido, Juca, também a achava avarenta. Ele era um homem trabalhador também, aliás, Jandira o conhecera enquanto vendia caldo de cana na feira e ele vendia pastel. Mesmo economizando, Juca ainda se dava o luxo de comprar uma coisinha ou outra para se mimar, tipo a colônia do Boticário que comprou há dois anos atrás e não havia usado tudo ainda. Jandira não tinha dessas, comprava suas roupas e sapatos no brechó da igreja e usava um perfume barato que havia comprado em um camelô por dez contos, mas ela fez questão de ressaltar que o preço era praticamente um assalto. Jaqueline achava que ela exagerava, que não faria mal comprar uma roupa no shopping de vez em quando, mas Jandira batia o pé “Que diferença faz? É tudo pano!”.

Um dia apresentaram para Jandira um esquema revolucionário que traria muito dinheiro para ela. Basicamente, fazendo alguns depósitos em dinheiro na conta de uma empresa, teria um retorno grande em poucos meses. Um investimento! Era tudo o que Jandira precisava, dinheiro fácil para ela finalmente poder descansar as pernas cheias de varizes. Fez toda segunda-feira, religiosamente, depósitos na tal conta do banco por alguns meses. O dinheiro não voltava, ela ligou para a empresa que sempre a acalmava “Logo logo você colherá os frutos”. Juca acusava que ela era doida por entregar seu dinheiro suado nas mãos de alguém que não conhecia, mas ela ignorou. Nunca precisara de conselhos do marido e nem de ninguém, ela sabia perfeitamente o que estava fazendo e o bem que traria para ela e sua carteira.

Quando já estava fodida e já tinha depositado mais do que podia, com a esperança de que sua parte ainda viria, finalmente saiu nos jornais a notícia que acabou com sua felicidade “Centenas enganados: empresário é preso por fralde”. Quis processar o homem, mas quando foi atrás, a mandaram entrar na fila junto com muitos outros trouxas falidos. A conta do banco já estava na casa dos dois dígitos, o dinheiro não entrava, Juca e Jandira trabalhavam igual a condenados, penhoravam as coisas de casa, mas parecia que nunca era o suficiente para pôr em dia os recém adquiridos débitos. Jandira se perguntava todos os dias, chorando, como pôde ter sido tão ingênua com seu precioso dinheirinho.

Um dia, andava na rua com Jaqueline olhando para o chão como sempre fazia e encontrou algo, mas não era dinheiro, infelizmente. Era um bilhete de loteria que alguém havia perdido por aí. Jandira nunca, sob hipótese nenhuma, gastou dinheiro com loterias pois sabia que eram uma farsa do governo. Sabia mais do que nunca, agora, como era impossível qualquer dinheiro vir fácil. Mesmo assim, enfiou o bilhete na bolsa. Mais tarde, ainda naquela semana, ganhou a humilde quantia de cinquenta milhões de reais. Jandira ficou tão surpresa e feliz que infartou.

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